A Livia Gonzaga escrevia o blog Mãe Viajante. Mudou-se para Austrália juntando uma oportunidade de trabalho para o marido, o fato dela não ter voltado a trabalhar depois do doutorado e a vontade de criar a filha em ambiente bilingue. Ela continua na Austrália, a família cresceu, mas essa matéria foi escrita lá atrás para a revista KIDS in nº 16. No entanto, as dicas da Austrália com crianças e a experiência vivida valem a re-publicação!

Apesar de a Austrália ser um destino popular entre viajantes do mundo inteiro, eu nunca havia pensado em viajar para cá, muito menos em me mudar para esta land down under. Foi por uma mistura de acaso e oportunidade que viemos parar aqui na terra dos cangurus. Uma boa oferta de emprego para meu marido, juntamente com o fato de eu ter acabado de terminar meu doutorado e ainda não ter voltado a trabalhar full time, associados à vontade de que nossa filha, Isabel, fosse criada num ambiente bilíngue, foram os principais motivos que nos trouxeram para cá.

Mudamos sem nunca ter vindo passar sequer umas férias aqui. Tudo o que sabíamos sobre o novíssimo continente (ou a maior ilha do mundo?) havia sido pesquisado na internet e em guias de viagem. Mas, com boa vontade e certa dose de sorte, tudo deu certo e hoje vivemos muito bem adaptados em Melbourne, a cidade mais europeia do país dos cangurus (e das aranhas, coalas e muitos outros bichos exóticos).

Quando chegamos aqui, nossa filha tinha recém completado dois anos, e, após os seis primeiros meses de adaptação ao novo ambiente, saímos da toca para conhecer este país que, na minha opinião (aqui correndo um certo risco de ser mal interpretada…), é, em alguns aspectos, especialmente no que diz respeito à população, muito mais diversificado e heterogêneo do que o Brasil.

A VIAGEM

Quando se pensa em viajar para cá, principalmente com crianças, o primeiro fator que desanima é o tamanho da viagem em si. De fato, considerando o Brasil como referência, a Austrália está, literalmente e sem exageros, do outro lado do mundo. São aproximadamente 15 mil quilômetros de distância, isso se fôssemos viajar em linha reta, sem quaisquer escalas ou conexões. Como ainda não inventaram um avião capaz de tal rota, são necessárias no mínimo uma ou duas conexões para chegar até aqui. A rota que eu recomendo para quem viaja com crianças é passando pelo Chile ou pela Argentina, porque as conexões mais frequentes permitem que a criança ande, gaste as energias acumuladas, estique as pernas e possa descansar melhor durante os períodos de confinamento na aeronave.

Desta forma, contando o tempo mínimo entre conexões e escalas, são mais ou menos 26 horas de viagem, na melhor das hipóteses. Então, a primeira providência é ter à mão entretenimento de bordo (livrinhos, gizes de cera e um caderninho para desenhar e colorir, iPod, iPad ou DVD portátil, sem falar do brinquedo ou bichinho de pelúcia favorito). Para crianças um pouco maiores (acima de dois anos), que já entendem o conceito de causa-e-efeito, também vale dar pequenos “prêmios” pelo bom comportamento durante o voo. Já apliquei essa tática uma vez e deu muito certo. Comprei uns dez brinquedos pequeninos, que não fazem barulho, e a cada duas ou três horas de bom comportamento, eu tirava de dentro de uma “sacolinha mágica” um prêmio. Há ainda o sistema de entretenimento de bordo, com canais infantis e um controle remoto cheio de botões e funções para a criança apertar e se divertir.

Para quem viaja com bebês, as maiores preocupações são com relação à comida e higiene. Viajo com minha filha desde que ela tinha apenas dois meses, então acabei aprendendo algumas lições. A primeira delas é: levar uma fralda para cada duas ou três horas de viagem, dependendo da idade do bebê (quanto mais novo, geralmente mais fraldas são utilizadas), e a mesma regra vale para o número de medidas de fórmula (leite em pó) que devem ser levadas nos potinhos próprios, já separadas (levar a lata inteira só vai fazer bagunça). Sempre viajei com mamadeiras com água e também aqueles potinhos de papinha industrializada, sem ter nenhum problema em aeroportos.

E, independente da idade da criança, a dica mais importante é: não se estresse demais. Tenha sempre em mente que barulho é algo que qualquer passageiro faz. Crianças choram da mesma forma como há passageiros que roncam, outros que tossem, outros que falam alto, e por aí afora.

AUSTRÁLIA

Chegando aqui, a primeira coisa que eu estranhei, apesar de ser fluente em inglês, foi o idioma. O inglês daqui é bem diferente do americano ou do britânico. O sotaque é forte, por isso são necessários alguns dias para acostumar o ouvido.

Naturalmente, os primeiros lugares que visitamos foram em Melbourne, capital do estado de Victoria, e seus arredores. Melbourne é uma cidade totalmente adaptada a crianças. Aonde quer que se vá, existem banheiros públicos dotados de um fraldário ou banheiro familiar, e há diversos parquinhos em todos os bairros, inclusive no centro da cidade, todos muito bem conservados. Existe uma preocupação geral com a segurança dos pequenos, então não se veem crianças andando fora da cadeirinha do carro, muito menos pedalando por aí sem capacete, e os brinquedos dos parquinhos são todos revestidos de borracha ou plástico.

Até hoje, todos os restaurantes que tive a oportunidade de conhecer por aqui são kids friendly. Sempre há um cardápio infantil, embora nem sempre seja a opção mais saudável: fish and chips (peixe com batata frita) ou chicken nuggets and chips (nuggets de frango com batata frita) são os itens mais comuns. E sempre há um caderno de desenhos e lápis coloridos para distrair os pequenos enquanto a comida não chega. Mas se você quiser experimentar como é ser um aussie, recomendo que fuja dos restaurantes e aproveite os parques e as churrasqueiras públicas para um bom piquenique ou churrasco. Em todas as praças, ou em qualquer um dos muitos lugares em que haja um gramado, você verá pessoas fazendo refeições ao ar livre, ou simplesmente aproveitando o espaço público para ler, descansar ou brincar com os filhos.

O transporte público é muito eficiente. Aqui é possível ir a praticamente todos os lugares usando o sistema de trams (bondinhos elétricos) ou trens. Calce o sapato mais confortável que você tiver, passe um bom filtro solar fator 30 mesmo no inverno, coloque um chapéu e leve uma pashmina, (aqui em Melbourne o tempo é louco), bote as crianças no carrinho e saia sem medo para bater perna cidade afora.

Os melhores lugares para passear com crianças em MELBOURNE:

Docklands

É a antiga área das docas, a região portuária de Melbourne que fica bem ao lado do CBD (Central Business District ou Distrito Central de Negócios), o centro da cidade. Docklands tem um píer lindo onde é possível fazer piqueniques. Há restaurantes, cafés e shoppings a céu aberto. Entre as opções mais interessantes para quem viaja com crianças, destaco:

  • Rinques de patinação no gelo.
  • Mini-golf que brilha no escuro.
  • Fliperama no shopping Harbour Town.
  • Feirinha de domingo.
  • Footy (futebol australiano, uma mistura do nosso futebol e de rugby) e se divertir muito com segurança e tranquilidade.

Saint Kilda Beach e Brighton Beach

São dois bairros (suburbs) famosos do sudeste de Melbourne. Em Saint Kilda, embora o clima seja geralmente mais frio durante a maior parte do ano, a praia sempre está cheia de gente se divertindo nos calçadões, restaurantes, piscinas públicas e, claro, na areia mesmo. Brighton, assim como Saint Kilda, é uma praia tranquila, cheia de crianças e ótima para um bom dia de brincadeiras, no verão ou inverno, e conta ainda com a atração especial das casinhas de madeira coloridas construídas na areia da praia, que se tornaram um dos cartões postais de Melbourne.

Federation Square

Uma praça lindíssima, com edifícios de arquitetura moderna e inventiva que abrigam galerias de arte interativas e museus. A Federation Square fica bem no centro da cidade, ao lado da Flinders Station, a mais bonita e uma das maiores estações de trem e metrô locais, e possui acesso facílimo a outros pontos turísticos da cidade.

City Circle (bondinho turístico gratuito)

Melbourne tem a maior rede de trams (bondes elétricos) do mundo. É possível chegar a praticamente qualquer lugar da cidade usando um tram e suas interligações. E para fomentar o turismo, a prefeitura disponibiliza este tram gratuito que circula ao redor do CBD.

Queen Victoria Market

Um mercadão onde é possível encontrar absolutamente tudo que for comestível, desde os ingredientes mais básicos até as comidas mais exóticas, além de souveniers tipicamente australianos a preços convidativos.

Crown Casino

Pode soar muito estranho recomendar um cassino num roteiro infantil, mas o Crown Casino é um imenso complexo de entretenimento, incluindo shopping, restaurantes, cinemas, lanchonetes, cafés, teatros – um ótimo passeioindoor, especialmente para dias chuvosos ou muito frios.

Royal Botanic Gardens (The Ian Potter Foundation ‘Children’s Garden’)

É o jardim botânico de Melbourne, um lugar lindíssimo bem próximo ao centro da cidade. O Children’s Garden é uma seção do jardim botânico especialmente dedicada às crianças.

Melbourne Museum

Austrália com Crianças

Um museu enorme, para passar o dia inteiro dentro. Há exposições permanentes especialmente voltadas para crianças, como a Bugs Alive (sobre insetos), Dinossaurs (interativa de dinossauros), e a Children’s Gallery. As atrações infantis incluem espelhos que modificam o corpo, prismas gigantes, amostras interativas, uma estação onde você pode se comparar aos animais da Austrália (por exemplo, você sobe numa balança e vê o seu peso não em quilos, mas no equivalente aos animais), e muito mais.

Scienceworks

É um museu interativo de ciências naturais dedicado às crianças, onde elas podem, por exemplo, brincar de “fazer” nuvens. Ótimo para pequenos acima de quatro anos.

Melbourne Aquarium

Embora o ingresso seja relativamente caro, mais ou menos 42 dólares australianos por adulto e 28 dólares australianos por criança, vale muito a pena. Os tanques são imensos, cheios de animais da fauna marinha australiana e do mundo todo. O aquário fica bem no centro da cidade, às margens do Yarra River, e acesso é facílimo pela Flinders Street, e é possível chegar de trem (Flinders Station), tram (Melbourne Aquarium Station) ou de carro mesmo, mas, nesse caso, o estacionamento pode sair caro.

Eureka Tower

A Eureka Tower é o edifício mais alto de Melbourne, fica bem no centro da cidade, tem 92 andares e mais de 300 metros de altura. Viaje nos elevadores mais rápidos do hemisfério sul até chegar ao octagésimo oitavo andar, onde fica o mirante Skydeck, no qual, por sua vez, localiza-se o The Edge, um cubo de vidro de três metros de lado que se projeta para fora da torre, de onde é possível observar o mundo sob a perspectiva de um gigante.

Complexo do Werribee Park (Werribee Mansion, Werribee Zoo, Rose Gardens, Werribee Gardens e Shadowfax Winery)

Localizado na região oeste da cidade, o parque foi criado a partir dos jardins da Werribee Mansion, uma mansão vitoriana transformada em museu. Local lindo para deixar as crianças correrem ao ar livre, aproveitar o café, passear pelo jardim das rosas e conhecer como era a vida dos que viveram na mansão nos idos do século XIX.

ARREDORES DE MELBOURNE (Estado de Victoria)

Ballarat Wildlife Park

Um zoo relativamente pequeno, sob medida para a disposição das crianças, onde é possível alimentar os cangurus que ficam soltos e são bastante dóceis. Também é possível ver os coalas, crocodilos e outros animais tipicamente australianos. Fica em Ballarat, a cerca de uma hora de carro de Melbourne, e também com fácil acesso via trem+ônibus, partindo da Flinders Station.

Great Ocean Road (Lorne, Apollo Bay e Port Campbell)

Passeio imperdível para quem visita o Estado de Victoria. Saindo de Melbourne, leva-se cerca de duas horas e meia para se percorrer a estrada toda, que segue pela beira do mar desde Geelong (cidade vizinha a Melbourne) até Port Fairy, já bem a oeste, com vistas e paisagens absolutamente espetaculares. Praticamente todas as cidadezinhas que existem pelo caminho possuem parquinhos fantásticos e cafés deliciosos, além de hotéis e pousadas super charmosos: não tem como não se apaixonar!

Lake Mountain

Estação de esqui para a família, a cerca de 90 quilômetros de Melbourne. Possui atrações projetadas para crianças pequenas, como áreas cercadas onde não é possível esquiar, apenas brincar na neve.

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Para conferir a programação da cidade e obter mais detalhes sobre preços e condições de cada passeio, recomendo os sites:

SYDNEY

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Sydney é a capital do Estado de New South Wales (Nova Gales do Sul), e é talvez a cidade mais conhecida da Austrália no exterior. Muita gente pensa, inclusive, que Sydney é a capital nacional, mas na realidade a capital australiana é Camberra. Uma comparação popularmente feita pelos brasileiros que moram aqui é a de que Sydney está para o Rio de Janeiro assim como Melbourne está para São Paulo, dadas as características de cada uma e, obviamente, guardadas as devidas proporções. Ambas são cidades lindas e deliciosas de se visitar. Há vários voos de baixo custo entre Sydney e Melbourne, e fora de temporada é possível viajar entre as duas cidades por até 40 dólares cada trecho de avião. Já passamos a Páscoa (que é um dos pouquíssimos feriadões da Austrália) em Sydney, e foi uma delícia. Assim como Melbourne, a cidade é toda adaptada à vida sobre quatro rodinhas, e embora não haja tantos fraldários e banheiros infantis, a estrutura é excelente e recebe os turistas mirins muito bem. Nossa visita durou quatro dias, e nosso roteiro foi o seguinte:

Circular Quay

O Circular Quay (pronuncia-se “círcular quí”) é o equivalente à Docklands de Melbourne, só que com um viés mais turístico e menos empresarial. Além da infinidade de restaurantes e bares, no Circular Quay está localizado o porto de onde partem os ferries, aerobarcos e até aquatáxis que dão acesso às diversas regiões e atrações da cidade.

Opera House

De noite é ainda mais lindo…

Provavelmente o mais famoso cartão postal da Austrália. É possível chegar lá a pé, vindo pelo Circular Quay. Você vai andar uns bons dois quilômetros, mas a vista é tão linda que vale a pena cada passo. Para visitar o entorno da Opera House não se paga nada, você só precisa do ingresso para efetivamente entrar no teatro.

Sydney Aquarium

Um passeio imperdível, principalmente se você pegar um dia de chuva. Nos moldes do Melbourne Aquarium, há tanques imensos com o melhor da fauna marinha da Austrália e do mundo. O ingresso adulto custa cerca de 46 dólares australianos, mas há desconto na compra online e vale cada centavo. E junto do aquário há um complexo enorme de restaurantes e lojas de souvenir.

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Bondi Beach (Bondi, Tamarama e Bronte)

Bondi Beach é uma famosa praia australiana, reduto de surfistas e turistas do mundo todo. Fica a cerca de 40 minutos de ônibus saindo do Circular Quay, e tem uma estrutura turística fantástica, com hotéis, piscinas infinitas e uma trilha sobre as rochas que permite ter uma vista panorâmica da praia toda e do mar, que por sinal, é de um azul ímpar. A trilha é pavimentada, mas tem alguns trechos com escadas, então, eu recomendaria levar bebês no canguru ou no sling. Há uma trilha pela qual é possível ir até uma praia vizinha, chamada Tamarama, que é praticamente uma enseada pequenina feita para crianças. Em Tamarama há um parquinho super equipado, com brinquedos bem conservados, um pedaço bom de grama, mesas de piquenique e churrasqueiras públicas. Para crianças maiores e adolescentes, recomendo Bondi e Bronte. Bronte é a praia seguinte a Tamarama, que também possui um gramadão, mesas de piquenique, restaurantes, bares e cafés, além, obviamente, da praia linda.

The Rocks

The Rocks é o lugar onde Sydney nasceu, algo como o marco zero da cidade. No século XIX, abrigava os armazéns portuários, os quais, hoje, em sua maioria, são restaurantes, pubs, cafés, galerias de arte, museus ou hotéis. Nós ficamos hospedados no Holiday Inn Old Sydney, que fica no The Rocks, e foi excelente. F

Opera House

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