Se tem uma coisa que tem me deixado assustada é a falta de criatividade que tenho visto em muitas crianças. Com o mundo cada vez mais exigente, pais acabam se preocupando demais em “capacitar” os filhos esquecendo que o brincar é a principal forma de aprendizado dos pequenos. E que o tédio, o ócio, são parte importantíssimas, diria até fundamental, do processo de criar.

E mais, é preciso permitir o livre brincar de fato. Sem direcionamento de adultos, sem um objetivo pré-definido. Nosso principal papel deve ser o de fornecer espaço e liberdade para que as crianças possam descobrir soluções simples com o que têm disponível no ambiente.

Brincar livre (de verdade)

Deixe o seu filho construir a própria brincadeira, utilizando o material que encontrar pela frente (claro, com a sua supervisão e autorização), para criar o que a imaginação permitir. Ou, crie você mesmo brincadeiras mágicas, geringonças e histórias mirabolantes com o que tiver em casa (de preferência o que for mais engraçado e inusitado). Dessa forma, você entra na lista dos pais que incentivam o desenvolvimento oral, comportamental, a criatividade, estimulam o equilíbrio, as habilidades psicomotoras, e otras cositas más, interessantes para o crescimento dos pequenos. E mais: brincando junto com a criançada, você estreita os laços com a cria, além de ter uma ótima oportunidade para educar servindo de modelo de comportamento e conduta, sem grandes formalidades, numa troca verdadeiramente prazerosa. Mas lembre-se de deixar que a criança conduza a brincadeira, entre no mundo dela e não tente guiar ou direcionar as atividades.

As brincadeiras feitas em casa são excelentes para despertar e ampliar o potencial imaginativo das crianças, além de desenvolver o raciocínio, pois, para inventar as tais brincadeiras, os pequenos precisam criar ambientes, personagens e regras. É assim que, mais tarde, encontrarão soluções para possíveis problemas, já que as “invenções” testam as habilidades para lidar com situações que podem encontrar na vida real. Assim confirma a psicóloga infantil comportamental e arte educadora, Jéssica Fogaça:

Com essas brincadeiras, as crianças precisam lidar com o que está presente em seu ambiente, com o que não está, e com a necessidade de completar o que falta. A rapidez do pensamento aumenta de acordo com o desenvolvimento da brincadeira. 

Palavra de quem brinca e se diverte com os filhos

A vontade de reorganizar a vida profissional para participar mais da infância da filha Gabriela, fez a redatora publicitária Ana Paula Martins passar a trabalhar em casa. A transferência do universo da criação, parte da labuta diária, para brincadeiras com a pequena, foi, então, um pulo. “Como sempre trabalhei com criação, houve uma hora que cansei das mesmas brincadeiras que fazia com a minha filha e decidi inventar algumas”, explica Ana Paula, orgulhosa das “experimentações”, que vão desde piqueniques em cabaninhas embaixo da mesa de jantar, até “banhos de estrelas” – com direito a banheira cuidadosamente preparada e um banheiro produzido com luzes de Natal penduradas no teto, para simular um céu repleto de estrelas – com o cuidado para ficarem longe de qualquer perigo de curto circuito, claro. 

Inventar brincadeiras em casa também mostra que, com a imaginação, é possível “voar” para qualquer dimensão, sem precisar de muito para se divertir. Essa é a opinião de Jessica von Lehsten, mãe do Leon e do Max, que estimula as crianças a inventarem brincadeiras sozinhas, desenvolvendo a autonomia desde cedo:

O mais velho adora sentir que está fazendo algo sozinho e, de preferência, que suje muito. E, mesmo que algo quebre ou caia no chão, eu respiro fundo e deixo claro para os meus filhos que tudo faz parte do processo.

Com isso, bolos são construídos “à moda do Leon”, que usa farinha, ovos e uma batedeira bem barulhenta para que a receita saia uma verdadeira delícia de bagunça.

Contra o consumismo desenfreado e a favor do desapego

Abrir mão de vez em quando dos brinquedos comprados e soltar a imaginação com brincadeiras mais simples, que têm a criatividade como principal aliada, faz com que as crianças aprendam a se divertir com pouco, em um mundo que estimula a “ter” sempre mais. Na opinião de Ana Paula, essa troca possibilitará que a sua filha, no futuro, tenha muito mais jogo de cintura com tudo, sabendo improvisar com o que tem. Já Jessica instiga a prática do desapego nas crianças como forma de evitar um consumismo desenfreado:

As crianças são bombardeadas com informações de produtos a toda hora e não têm como fugir disso. Eu estimulo a troca de brinquedos com outras crianças e elas acabam ficando felizes com as novidades.

Portanto, pais, é hora de conduzir as brincadeiras dos pequenos, para que elas usem a criatividade na construção de histórias e projetos incríveis. Para a imaginação não existem limites, ainda mais quando essa liberdade criativa pode trazer inúmeros benefícios para a vida presente e futura da meninada. Vale até mesmo fazer uma baguncinha, desde que, depois, se convide as crianças para dar uma arrumada na pequena zona. Afinal, responsabilidade também se aprende brincando!

Vamos brincar? Ideias para te inspirar!

Uma aventura na sua floresta particular

Transforme a mesa da sala de jantar em uma cabana. Para isso, use cobertores ou saídas de praia para servirem de paredes. O lanche na cabana pode ser “colhido” ou “caçado” pela cozinha e os sons da rua e dos vizinhos podem virar os barulhos da floresta! A regra é soltar a imaginação.

Pra que estes binóculos tão lindos? Para te enxergar melhor!

Construa binóculos usando os rolos vazios de papel higiênico. A criança escolhe a decoração e o adulto auxilia (podem ser círculos ou triângulos colados e pintados com canetinha). Os binóculos podem ganhar um cordão de pescoço para ficarem ainda mais caprichados. Depois de prontos, que tal um passeio lá fora para ver as estrelas e conversar sobre elas?

Hoje é dia de pescaria

Monte uma pescaria com palitos de comida japonesa, fitas de cetim, cartolina, canetas coloridas, cola e imãs de geladeira. Faça os peixes de cartolina e deixe a criança pintar. Depois, cole um ímã na parte de trás dos peixinhos e ponha uma fita no palito com um ímã na ponta e está feita a vara de pescar. Use uma caixa de sapatos para os peixes e voilá: está pronta a pescaria!

Pizza de retalhos

Pegue um prato de papel descartável, retalhos de tecidos, fitas, cola e tesoura. Finja que você e a criança são os chefs que irão preparar uma deliciosa pizza, utilizando bolinhas pretas para serem azeitonas e círculos maiores para os tomates. O adulto recorta os ingredientes e a criança cola.

Essas brincadeiras todas são sugestão da Ana Paula Amaral e fazem parte do projeto do seu livro “Feito Criança”.

Por Cynthia Jacques – diretora da KIDS in, mãe da Luiza, boadrasta do Felipe e do Mateus, tia do Phill, madrinha do Gui, tia de um monte de criança maneira, ex-professora de ballet e sapateado além de formada em fonoaudiologia.

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